
Menino, menino
Menino bonito
Dorme, bonito
Amanhã vai
Vai catar xepa da feira
Tapar o sol com a peneira
Provar do pão do desprezo, chorar
E se molhar de suor
Sabe lá o que é o amor
Será que a vida é só isso, menino?
Menina, menina
Menina bonita
Dorme, bonita
Amanhã vai
Ver a verdade tão crua
Vender o corpo na rua
Provar do pão do desprezo, chorar
E se molhar de suor
Sabe lá o que é o amor
Será que a vida é só isso, menina?
A tua presença, morena, é sol e ar
Rega o meu coração, faz germinar
A semente de amor que eu trago no olhar
Olho d'água no escuro da mata a brotar
Luz do luar
O gosto de te beijar é doce mel
Chuva que vem limpar as nuvens do céu
É o brilho do sol querendo queimar
Todo ser que entende a magia de amar
Água do mar
Tem nos olhos dessa menina
Tanta rima
Que parece uma poesia
Tem nos olhos dessa criança
Tanta dança
Misteriosa coreografia
Tem nos olhos dessa morena
Tanta cena
Um toque de humor no olhar
Eu vi nos olhos dessa Maria
Uma coisa que eu já via
Quando era pequeno e pedia
De joelhos, no altar de outra Maria
Eu vi nos olhos dessa cigana
Uma chama
Um fogo de amor no olhar
Eu vi nos olhos da minha filha
A oitava maravilha
Olha, meu amor
O dia clareou
A luz se debruçou sobre a janela
Escuta, meu amor
Os sons do amanhecer
O canto madrigal dos passarinhos
Olha, meu amor
O sol se levantou
O azul se derramou em luminosa beleza
Te amo, te amo
Olha, meu amor
A tarde chega ao fim
A noite vem trazer o seu afago
Olha, meu amor
A lua vai surgir
Vaidosa por detrás do Corcovado
Fica, meu amor
Habita os braços meus
Não quero mais viver sem teu carinho, sozinho, sozinho
Te amo, te amo
Tentaste um crime perfeito
Contra o meu coração
Tiraste sem ter direito o chão
Onde eu pisava e vivia
Por breve tempo sentia a impressão
De ter provado do amor
Ter conhecido a verdade
Ter sido um dia vizinho da felicidade
Que coisa torpe e covarde
Sem hesitação
Forjaste a impunidade com perfeição
Pra assegurar meu silêncio
Deixaste por garantia
Um resto de paixão
O rosto moreno na praia vazia
É pura paixão, é pura poesia
Que a natureza escreveu algum dia
De inspiração e de branca magia
O colo de pedra, visão generosa,
Revela o contorno da amante vaidosa
Que esconde os seus olhos na lua brilhante
Que se apresenta de um mar de diamante
O vento soprando espuma e areia
É convite pra dança, é canto da sereia
À noite eu escuto, a cidade me chama
Leblon, Ipanema e Copacabana
Ao corpo dourado, a jóia mais rara,
Pra sempre deitado sobre a Guanabara
O sol encantado se dá por inteiro,
Beijando a carne do Rio de Janeiro
Queria te encontrar um dia, nada combinado
Tomar a tua mão com jeito de artesão
E cuidado
Te convidar pra uma viagem ao passado
Não posso perder o tom
Pensei em te levar comigo por alguma estrada
Pra ver o sol nascer nas barras de la madrugada
E contemplar o horizonte enluarado
Como seria bom
Queria me perder contigo, minha Barbarella
Fazer amor enquanto o tempo passa na janela
E me achar no teu infindo estrelado
Num viajar sem fim
Mas sei que coisa assim não acontece hoje em dia
Eu tenho que aprender a ser sem tua companhia
O que será do meu romance inventado?
O que será, enfim?
O que será de mim, assim abandonado?
O que será de mim?
Queria te levar comigo, minha Jane Fonda
Pra ver o sol nascer do alto da Pedra Redonda ...
Sentimento
Nasce tão suavemente como nasce o dia
Ou chega sem aviso, de repente,
Como sopra o vento
E invade e comanda
Um momento
Fragmentos de memória esquecidos no vazio
Dez ou vinte anos que passaram num instante
Sorrateiro, fugidio
Sensações inesperadas
Quando o passado vem nos visitar
Onde foi que eu ouvi essa canção, essa palavra?
Esse cheiro doce no quintal, onde foi mesmo?
Em que tempo, em que história?
Alegria
Ver a face da saudade aberta num sorriso
Franco e luminoso como a cor da aurora
Há quanto tempo,
Quanto tempo
sem letra
Depois que o grão apodreceu no galho
A miséria chegou com seus dias compridos
E as noites curtas por demais
Porque a fome acorda
Nunca mais o meu filho fugiu da horta
Amassando na boca as alfaces
Falai
Se há dor que se compare à minha
Deixa de ser tão teimosa
Se deixe alcançar
Dessa maneira sua
É tão ruim de se amar
Eu, feito doido nas ruas
Tentando te seguir
Você é tão criança
Brinca de esconder
Que brincadeira maluca
Que vai me arrasar
Te saber tão distante
Não poder te tocar
Esse sofrimento todo
Vai me enlouquecer
E, quanto mais te procuro,
Mais longe de você
sem letra
Renda branca sobre a janela
Pétalas de flores no chão
O brilho das lanternas de velas
O incenso doce sobe às estrelas
O canto triste da procissão
A igreja de Santo Antônio
Pronta para a coroação
A chuva que levou a calçada
O barco de papel na enxurrada
Pai, de onde vem o trovão?
Rua Nova, eu me lembro
Todo inverno e verão
Minha pátria, hoje em dia
É a recordação
Névoa fresca sobre a manhã
Um beijo, pêra, uva ou maçã?
Pique, bandeirinha ou queimada,
Corta a linha, pipa voada
Jogos de polícia e ladrão
Na escuridão da varanda
A velha conta de assombração
O lobisomem mora ali do lado
Hoje vai descer o congado
Tanajura, camaleão
Rua Nova só existe,
Hoje, em meu coração
Na lembrança de quem viveu
Todo inverno e verão
Dobra em mim
O indefinido som de um sino
Que prenuncia o meu destino
Solidão...
Dobra assim
Nos escondidos do meu peito
Como quem não encontra um jeito
De achar uma saída
Dobra, sim,
E ao seu bater desesperado
Meu coração, Stalingrado,
Feito aos pedaços, resiste
Dobra em mim
O sino dos excomungados
Que vem cobrar os meus pecados
Os sonhos que jamais vivi
Dobra assim
Em desvairado desatino:
Ai de ti, Avelino
Ai de ti
Advar Medeiros: sax (faixa 13)
André Elias Atalla: guitarra solo (faixas 1,2,3,6,7,8,12,14), violão Fender (faixa 14)
Aurino Oliveira: sax (faixa 4)
Berval Moraes: baixo (faixa 13)
Etiene Trevisano: bateria (faixas 2,3,6,7,8)
Fernando Barreto: guitarra semi-acústica (faixas 3,8), teclado (faixas 2,3)
José Avelino Atalla: arranjos, violões de aço e nylon, ukelele, voz
José Maria Rocha:, teclado, arranjo (faixa 10)
Luciano Batista: harmônica (faixa 14)
Márcio Hallack: piano (faixas 6,7,8,13), acordeon (faixa 14)
Max Barreto: vocais (faixas 2,3,6)
Nilo Barreto: baixo (faixas 2,3,6,7,8,14)
Renato Beiriz: piano, teclado, programação de bateria (faixas 1,4,5,9,10,11,12)
Renato Mello: bateria(faixas 13, 14)
Ricardo Santoro: violoncelo (faixa 5)
Vicente: percussão (faixas 7,8)
Gravação: STUDIOMAX (faixas 1,4,5,9,10,11,12) e Caraíva Music (faixas 2,3,6,7,8,13,14)
Mixagem: Nilo Barreto, Caraíva Music
Masterizaçâo: Ricardo Soares
Designer de capa: Admir de Carvalho Silva
Capa: Foto de Luís Fernando Faria Alvim, editada por Antonio Njaim Atalla Neto
Contracapa: Foto de Studio Spencer, editada por Admir de Carvalho Silva
Fundo: Rua Nova, editada por Admir com foto de Emiliana Benini
Fabricado no estúdio Caraíva Music, Juiz de Fora, MG